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domingo, 19 de junho de 2011

CHEIRO DE LAQUÊ!

-Ontem fui comprar um novo esmalte e quando estava escolhendo a cor senti um fantástico cheiro de laquê!
-É, laquê! Aquele spray que a gente passa no cabelo para finalizar um penteado, deixando o cabelo mais “durinho”.


-Simplesmente adoro esse cheiro! Ele me faz lembrar uma tia já falecida, a quem eu amava de verdade!
-Todo mundo tem uma tia.... A tia velha, a tia fofoqueira, a tia safada, a tia chata e por ai vai.
-A gente, quando chega a vida adulta sempre se lembra de alguma tia dessas e se esquece daquela tia que amou.
-Eu tive uma tia que amava! Chamarei-a de Bela!
-Tia Bela, tia Belinha!

-Minha tia era uma mulher de estatura pequena. Pobre, guerreira, lutadora e sem estudo. Mas era fina.... como era fina!
-Sempre cheirosa,  sempre bonita e o que me encantava mais.... sempre com um sorriso. Mesmo chorando, nos olhava com um sorriso!


-Aprendi muitas coisas com minha tia: Ela casou-se, teve uma filha, teve um caso, teve um filho, separou, passou aperto, adotou um filho que tinha problemas (tinha um certo tipo de retardamento...era lerdo).  E ela o amou, amou demais. Amou a todos os três filhos.
-Tá, mas e daí, o que você aprendeu com ela? você deve estar se perguntando!
-Bom, eu aprendi que as mulheres podem ser guerreiras, podem amar outro homem que não o marido calhorda, podem ousar ser feliz mesmo com a família inteira apontando o dedo pra ela e dizendo que ela é errada.
-Aprendi com ela que preconceito é uma merda e que sempre existe alguem pra te confrontar, mas mesmo assim, voce pode seguir em frente!



-Minha tia era a pobre da família. a devassa, a errada, a torta... Mas para nós, os sobrinhos, nada disso interessava, somente seu amor, e sua deliciosa companhia!
-Nossa família é extremamente grande, com tios mais ou menos abastados, a maioria residindo em Minas Gerais, mas adivinha aonde ficávamos nas férias? Na pequena, pobre, limpa e cheirosa casa de Tia Belinha! Bela no nome, Bela na voz, Bela no amor....
-Todos amontoados nos pequenos cômodos da casa...
-Mas vou te contar, que festa que fazíamos!
-E Ela sempre nos recebia muito bem.


-Neste momento, alguns parentes  que estão lendo este post, vão se lembrar rapidamente dos defeitos de minha tia.
-Perda de tempo, porque ela era humana e tinha defeitos sim, E pagava o preço de tentar ser feliz, sempre com a cabeça erguida e com aquele maravilhoso cabelo com cheirinho de laquê.
-O que realmente me interessa foram as coisas que aprendi com ela: A não julgar, se colocar no lugar dos outros, sempre lembrar que nosso telhado é de vidro e que nossos armários estão cheios de  esqueletos. E que esses esqueletos podem sair a qualquer instante para nos assombrar!
-Tia Bela! Simples assim: BELA!


-Adorava quando, minha mãe avisava... Sua tia vai chegar!
-Não gostava de algumas visitas, mas Ela? Ela era especial!
-Sempre acompanhada de seu bom humor, sempre sorrindo, dando bons conselhos,  mostrando a minha mãe que a ira não leva ninguém a nada, que a vida pode acabar amanhã e que a gente tem que ser feliz!

-Tia Bela tinha um ritual pra dormir, que eu ficava observando discretamente.
-Ver minha tia se arrumar para dormir era muuuito bom!
-Conversava  com a gente  um pouco e ia ao banheiro; Fazia sua higiene e começava o ritual noturno, após colocar o pijama, que estava sempre impecável: enrrolava seus cabelos curtos com os dedos em pequenos montinhos e os predia com grampos. Depois, colocava um lenço na cabeça, tirava suas lentes de contato, pegava um copo d’água e ia se deitar.... eu só observava e achava esse pequeno ritual lindo! Rsrsrs
-De manhã, outro ritual: acordava, se higienizava e tirava o lenço. -Eu corria ao banheiro com uma desculpa para vê-la se arrumando: tirava grampo por grampo, desenrolava os pequenos rolinhos de cabelo, se penteava levemente (ela tinha cabelos lisos) e tcham, tcham, tcham, tcham: a Cereja do Bolo, o Cream de la cream: O LAQUÊ....



-Ai, que saudades daquele cheiro, daquele gesto, daquele sorriso.... Ai, que saudades minha bela Tia Bela!



-Uma pena de quem só encontra defeito nas tias, uma pena de quem não se aproxima de suas Belas tias.
-Tia Bela faleceu a Três anos, exatamente no dia de meu aniversário. Foi tudo repentinamente, nos deixando órfãs de tias mágicas.
-Não fui ao seu velório, não fui ao seu enterro. Misto de covardia e impotência. Mas queria guardar a imagem dela assim: Passando laquê. Morreu nova!
-Mas na verdade eu acho que lá no intimo, ela faleceu após perder seu filho adotivo que faleceu com doença decorrente de aids.
-Essa foi a verdadeira lição de Tia Bela: Amou sim aos filhos, mas pra mim, que sempre fui observadora demais, esse filho em especial, foi uma troca de cumplicidade, uma amizade verdadeira, um amor imenso. Ele deu trabalho, muito trabalho. Quando criança ele era uma pimenta muito  ardida, sem contar que a idade mental era menor que a física. Cresceu, descobriu-se gay e os dedos da família agora se voltavam pra ele. Afinal, era adotado e não podia ser gay!
-Sacumé, né gente, você pode fazer tudo, mas tem que ser escondidinho ninguém pode saber!



-Caraca! foi ali que aprendi que filhos gays aceitos e amados, são excelentes filhos!
- A casa de minha tinha estava sempre um brinco, e era ele quem cuidava! Além dos dois sempre trocarem confidencias e serem amigos verdadeiros. Ele adoeceu e ela simplesmente não julgou, segurou em sua mão e mais uma vez esbofeteou a família (irmãos, cunhados e  sobrinhos ) com o amor imenso que tinha pela vida dos filhos, adotados ou não!



-Essa foi pra mim a grande lição de Tia Bela: Amar, cuidar, engolir sapos, chutar baldes, mas tirar lições de tudo o que a vida dá!

-Se eu acredito em super heróis?
-Não sei, mas acredito em tias mágicas, aquelas que sempre sacam uma bala jujuba da bolsa na hora certa, que sempre faz um comentário maroto, mas nos lembrando que a vida é uma roda gigantes e as vezes estamos lá em cima, vendo uma vista maravilhosa e as vezes lá em baixo, perdendo esta mesma vista!


-Tias mágicas, lutando contra o preconceito dos irmãos. Tia mágica, que continha a fúria de minha mãe. Tia mágica, que luta com todas as garras pra manter os filhos juntos, que faz um bolo de mandioca maravilhoso, que ainda pensava no príncipe encantado.Tia mágica que cheirava a laquê.... 


-Tia Bela, Belinha, Belona, que quando falamos nela aqui em casa, sinto que meus irmãos sorriem com o fígado! Aquele sorriso das entranhas, que significa saudade, que significa amor!


-Esta sim, era super! E Bela!
-Aliás, você precisa de uma jujuba?
 

Fotos: reproduçoes tiradas da internet. Qualquer dúvida, por favor, entre em contato que retiro as fotos imediatamente

2 comentários:

Rodney santiago disse...

Belíssimo texto. Belíssima história. Belíssima tia Bela.

Maria Silva disse...

Odorei seu blog muito bom!!!